Em meio a empate nas pesquisas, militantes dos dois candidatos intensificam ações nas redes sociais e nas ruas para influenciar eleitores antes do segundo turno

Apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) intensificaram a mobilização para tentar conquistar votos de eleitores indecisos na reta final da disputa presidencial. As estratégias incluem campanhas nas redes sociais, conversas presenciais, produção de vídeos e orientações para convencer pessoas que ainda não definiram seu voto.
Após terminar o primeiro turno cerca de 3 milhões de votos atrás de Flávio Bolsonaro, Lula busca ampliar sua base eleitoral entre indecisos, eleitores de candidatos derrotados e pessoas que votaram nulo ou branco. Do outro lado, apoiadores do senador também têm promovido ações para consolidar a vantagem e atrair novos eleitores.
Uma das estratégias adotadas por militantes petistas é disseminar mensagens que questionam as propostas atribuídas a Flávio Bolsonaro. Uma publicação na rede social X, antigo Twitter, relata uma situação em uma farmácia, na qual uma pessoa afirmou que pretendia aproveitar o Pix enquanto o serviço ainda seria gratuito, sob o argumento de que o candidato poderia entregar o sistema aos Estados Unidos, que passariam a cobrar pelo uso. A mensagem faz parte de uma mobilização que associa uma eventual vitória de Flávio a mudanças no funcionamento do sistema de pagamentos.
Campanha petista aposta no diálogo e nas redes sociais
Em 17 de outubro, aproximadamente duas semanas após o primeiro turno, a campanha oficial do PT divulgou um vídeo com orientações de Lula para eleitores interessados em dialogar com pessoas que rejeitam o presidente. Com animações inspiradas em videogames e música eletrônica, o material funciona como um guia para conversas com potenciais eleitores.
Além das iniciativas oficiais, apoiadores têm compartilhado conteúdos no Instagram, no TikTok e no X com sugestões para abordar indecisos. Entre as recomendações estão ouvir as preocupações dos interlocutores, apresentar propostas de Lula e apontar críticas a Flávio Bolsonaro. Algumas publicações também sugerem que os militantes se apresentem como indecisos ou digam ter votado em candidatos eliminados no primeiro turno para facilitar a aproximação.
A mobilização também ocorre em grupos de WhatsApp, como o “Exército do Lula”, coordenado pelo deputado André Janones (Rede-MG). A estratégia inclui ampliar o alcance de publicações, impulsionar hashtags e estimular pesquisas na internet relacionadas a assuntos considerados desfavoráveis ao adversário.
O objetivo é aumentar a circulação de conteúdos políticos e influenciar as discussões digitais em um momento no qual cada parcela do eleitorado pode fazer diferença no resultado.
Grupo de Fortaleza procura eleitores nas ruas
Em Fortaleza, nove amigos de diferentes áreas profissionais criaram o projeto “Procuram-se Indecisos”. O grupo reúne jornalistas, artistas, pedagogos e advogados que dividem tarefas de produção de conteúdo para as redes sociais e atividades presenciais em espaços públicos.
A iniciativa busca especialmente alcançar eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno. Segundo os dados apresentados na reportagem, cerca de 30 milhões de pessoas se abstiveram da votação.
Com uma faixa que leva o nome do projeto, os integrantes abordam pessoas nas ruas para conversar sobre a eleição e tentar estimular a participação no segundo turno.
“Estar atuando coletivamente nessa ação tem sido, na verdade, um respiro em meio ao caos. As pessoas na vida real são menos cruéis que na internet”, afirmaram os integrantes em nota enviada à reportagem.
Artistas ampliam participação na campanha
O músico Vitor Brauer, conhecido por sua atuação na cena independente e por manter contato frequente com o público nas redes sociais, também intensificou a participação na campanha de Lula. Com milhares de seguidores no Instagram, ele afirma dedicar boa parte do dia a comentar, responder e compartilhar publicações políticas.
“Tenho passado o dia todo comentando, respondendo e compartilhando coisas dos outros também”, disse.
Segundo Brauer, a estratégia consiste em ampliar o volume de conteúdos objetivos sobre as posições dos candidatos, além de incentivar seus seguidores a participar da mobilização e comparecer às urnas.
O músico relata que a maior parte do público recebeu positivamente seu posicionamento político, embora tenha registrado reações negativas de grupos com diferentes orientações ideológicas. Para ele, a presença nas redes sociais também envolve uma responsabilidade com os jovens que acompanham seu trabalho.
Pesquisa aponta mobilização semelhante dos dois lados
Um levantamento BTG/Nexus, divulgado pelo jornal O Estado de S. Paulo em 20 de outubro, indica que os apoiadores convictos de Lula e Flávio Bolsonaro apresentam níveis semelhantes de engajamento na tentativa de convencer outros eleitores.
Entre os eleitores convictos de Flávio, 68,5% afirmaram tentar convencer outras pessoas a votar no candidato. Entre os apoiadores convictos de Lula, o índice foi de 67,8%, configurando empate técnico.
A pesquisa ouviu 2.002 pessoas em todo o país, tem nível de confiança de 95% e margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
O levantamento também apontou empate entre Lula e Flávio Bolsonaro na disputa de segundo turno e mostrou que 8,4% dos entrevistados ainda estavam indecisos.
Para Marcelo Tokarski, diretor da Nexus, o percentual indica que o resultado permanece em aberto.
“Esse dado de 8,4% de eleitores que não estão convictos de seu voto mostra que a eleição não está definida”, afirmou. Segundo ele, existe uma parcela relevante do eleitorado disposta a mudar de posição, embora ainda não seja possível prever qual candidato será beneficiado.
Bolsonaristas também investem em conversas presenciais
Entre os apoiadores de Flávio Bolsonaro, a mobilização para conquistar votos aparece tanto em manifestações públicas quanto em ações nas redes sociais.
O empresário Pablo Marçal, que disputou a Prefeitura de São Paulo em 2024 e está inelegível até 2028, publicou vídeos em que tenta convencer eleitores a abandonar a opção pelo voto nulo. Em um dos registros divulgados na semana, ele conversa por cerca de oito minutos com um eleitor que afirma não querer escolher nenhum candidato.
“Vamos só tirar o PT”, disse Marçal durante a abordagem. Ao final, o eleitor respondeu que iria pensar.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também incentivou a mobilização de jovens durante um ato de estudantes de direita no Insper, instituição particular localizada na zona sul da capital paulista.
O grupo Direita Mackenzista, que ajudou a organizar o encontro, afirma promover rodas de conversa na faculdade para debater a eleição com outros estudantes.
Estratégias refletem climas distintos nas campanhas
Embora os dois campos políticos estejam empenhados em conquistar novos votos, a mobilização apresenta diferenças de discurso e de contexto. Entre apoiadores de Flávio Bolsonaro, as iniciativas ocorrem em um ambiente de tentativa de manutenção da liderança conquistada no primeiro turno, com abordagens que buscam ampliar a vantagem.
Já entre os apoiadores de Lula, a necessidade de reverter a diferença de votos contribui para um clima de maior urgência. A mobilização envolve tanto ações organizadas pela campanha quanto iniciativas espontâneas de militantes, artistas e grupos independentes.
Com a disputa empatada nas pesquisas citadas e uma parcela do eleitorado ainda sem decisão consolidada, a capacidade de dialogar com indecisos e mobilizar eleitores que não compareceram ao primeiro turno se tornou uma das principais frentes da campanha presidencial.




