Artigo: Sobradinho I, II… e a insônia

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Existem madrugadas em que a insônia vem por preocupações reais: contas, problemas, trabalho, saúde…

Mas existem outras madrugadas em que o cérebro simplesmente decide abrir uma CPI mental sobre assuntos completamente aleatórios.

A minha última foi sobre Sobradinho.

Tudo começou cerca de 18 anos atrás, quando me mudei de Planaltina para Sobradinho… ou melhor… Sobradinho II.

Pouco tempo depois comecei a participar das atividades políticas e comunitárias da cidade. Reuniões escolares, conselhos de segurança, encontros comunitários… e em praticamente todas elas havia moradores de Sobradinho e de Sobradinho II.

Como novato na região, eu cometia um erro aparentemente imperdoável.

Perguntava naturalmente:

— Você mora em Sobradinho I ou II?

Era automático. E quase sempre vinha a correção imediata:

— Não existe Sobradinho I. É Sobradinho… ou Sobradinho II.

Eu, sem querer criar climão em reunião comunitária, reformulava rapidamente a pergunta. Mas minha cabeça ficava martelando aquilo.

“Ué… então por que no ônibus está escrito Sobradinho I e II?”

E foi aí que a insônia começou… dezoito anos antes dela acontecer oficialmente.

Porque quanto mais eu pensava, mais confuso ficava.

Será que alguém de Sobradinho evita pegar o ônibus só porque no itinerário aparece “Sobradinho I e II”?

E a UPA?

Porque a UPA de Sobradinho fica justamente em Sobradinho II.

E o pior de tudo…

O Cemitério de Sobradinho também fica em Sobradinho II.

Ou seja: em vida pode até existir discussão territorial… mas na eternidade aparentemente todo mundo aceita o endereço.

E quando alguém tenta apaziguar a rivalidade entre as regiões, sempre aparece a clássica frase:

— Que besteira… o que divide Sobradinho I do II é só uma ponte.

Aí é que a situação piora.

Porque exatamente do lado da ponte ficam a UPA, o cemitério e até o Setor de Mansões de Sobradinho — que também gera confusão administrativa.

Quando surge algum problema por lá, parece jogo de empurra: uma administração acha que pertence à outra… e a outra devolve.

Nessa altura da madrugada eu já estava olhando para o teto do quarto questionando não apenas divisões territoriais, mas talvez a própria estrutura do universo.

Até que lembrei de um episódio recente.

Dias atrás peguei um Uber voltando do trabalho e avisei ao motorista:

— Não vá por Sobradinho III.

O aplicativo insistia naquele famoso “atalho” que, na prática, faz o cidadão enfrentar estrada de chão, quebra-molas infinitos e um trânsito lento capaz de envelhecer qualquer passageiro.

O motorista então perguntou:

— Ué… e existe Sobradinho III?

Fiquei em silêncio por alguns segundos.

E essa, meus amigos…

Já é pauta para outra madrugada de insônia.