Natural de Teresópolis, o pastor Jesse de Jesus construiu uma trajetória marcada pela atuação missionária e pelo compromisso social. Após viver por 30 anos no Amazonas, onde trabalhou em comunidades ribeirinhas e isoladas em cidades como Manaus, Maués e Manicoré, ele agora lidera o projeto “Jesus em todas as direções”, uma iniciativa voltada ao levantamento da realidade missionária e social na região amazônica.
Há 12 anos atuando no Distrito Federal, Jesse mantém vínculos frequentes com o Norte do país, unindo atividades religiosas, sociais e pesquisas sobre a evangelização nas regiões mais carentes. Atualmente, é pastor convencionado da CONAMAD e congrega na Catedral Baleia, em Brasília, um dos maiores templos da denominação, conhecido por sua estrutura moderna e arquitetura imponente.
A realidade encontrada nos grandes centros urbanos, no entanto, contrasta com a vivência do pastor nas comunidades amazônicas, onde atuou em templos simples, muitas vezes instalados em “tapiris” — habitações ribeirinhas de chão batido e cobertura de palha. Para Jesse, a questão não é a prosperidade das igrejas urbanas, mas a desigualdade na distribuição de recursos dentro das próprias instituições religiosas.
Reflexões sobre gestão e economia nas igrejas
Autor de obras voltadas à gestão religiosa, Jesse de Jesus aborda temas considerados sensíveis no meio evangélico. No livro Administração Eclesiástica para quem precisa de administração eclesiástica, ele diferencia funções sacerdotais das atribuições administrativas nas instituições religiosas, defendendo maior profissionalização na gestão e chegando a propor a separação entre liderança espiritual e administração institucional.
Já na obra Sociabilização da Economia Eclesiástica, o autor discute a estrutura financeira das igrejas, analisando seu funcionamento como organizações formalizadas, com CNPJ e obrigações legais. O livro também apresenta posicionamentos polêmicos, como a defesa da tributação das igrejas no Brasil e críticas ao uso de dízimos e ofertas para fins que não sejam ações sociais e missionárias, inspiradas no modelo da Igreja Primitiva descrito no livro bíblico de Atos dos Apóstolos.

Pesquisa histórica e novas conexões missionárias
Durante pesquisas para o livro Da Semeadura ao Campo, sobre a história da evangelização na região de Brazlândia, Jesse viajou ao Amazonas para entrevistar a missionária Noêmia Ricardo, fundadora da Missão Monte Sião, que atua há mais de duas décadas em comunidades ribeirinhas e indígenas. Segundo ele, apesar de sua relevância histórica para uma igreja do Distrito Federal, a missionária nunca recebeu apoio institucional para suas ações.
Mais recentemente, ao estreitar relações com lideranças religiosas no DF, incluindo o secretário de missões Idelfonso Dantas, surgiu a ideia de realizar uma viagem de diagnóstico para identificar necessidades e fortalecer trabalhos missionários locais que enfrentam dificuldades, principalmente financeiras.
A iniciativa é de caráter pessoal, custeada pelos próprios integrantes da comitiva, sem financiamento institucional ou patrocínio.
Expedição por comunidades ribeirinhas e indígenas
A missão terá início em Manaus, com visitas aos trabalhos da Missão Monte Sião na zona leste da cidade, região marcada pela alta densidade populacional e vulnerabilidade social.
Em seguida, a comitiva se juntará ao pastor José Eustáquio Fortunato, atualmente vice-pastor da Igreja Presbiteriana de Manaus, para uma jornada fluvial por diversas localidades do interior. O grupo percorrerá cerca de 210 quilômetros até a cidade de Anamã, em viagem de aproximadamente 17 horas.
O roteiro inclui visitas às comunidades ribeirinhas Vila Nova e Vila do Cuia, além da comunidade indígena Eware, dos povos Tikuna, localizada em uma ilha do Rio Solimões conhecida como Ilha do Camaleão.
A expedição seguirá ainda para Codajás e, posteriormente, para Tefé, cidade considerada estratégica por sua posição central no estado. A jornada também prevê permanência em aldeias indígenas das etnias Kokama e Kambeba, onde serão realizadas atividades religiosas, intercâmbios culturais e apresentações de rituais tradicionais.

Investimento em missionários locais
Segundo Jesse de Jesus, o principal objetivo do projeto é documentar a realidade econômica, social e religiosa das comunidades visitadas, produzindo dados que possam orientar futuras ações de apoio e investimento.
Ele destaca que os altos custos e a dificuldade de envio de novos missionários para regiões remotas tornam mais eficiente investir em lideranças locais já adaptadas às condições culturais e geográficas da Amazônia.
A proposta, segundo o pastor, busca resgatar princípios de solidariedade e partilha presentes nos primeiros tempos do cristianismo, promovendo uma atuação mais igualitária entre as comunidades religiosas e ampliando o alcance das ações sociais.
O projeto “Jesus em todas as direções” recebe esse nome em referência à rosa dos ventos — Norte, Sul, Leste e Oeste — simbolizando a expansão da fé e da assistência social em todas as regiões, especialmente nas áreas mais vulneráveis do país.





