Literatura inclusiva ganha espaço e reúne autores na 6ª Bienal do Livro de Brasília

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No Estande 70, AIAB e ALETRAS apresentam livros acessíveis, incentivam novos escritores e mostram como recursos como Braille, audiolivros e Libras podem ampliar o acesso à leitura

Livros expostos no Estande 70 mostram diferentes formas de acessar a literatura, com obras de Dinorá Couto Cançado e outros autores da AIAB e da ALETRAS
Livros expostos no Estande 70 mostram diferentes formas de acessar a literatura, com obras de Dinorá Couto Cançado e outros autores da AIAB e da ALETRAS

A literatura inclusiva ganhou espaço na 6ª Bienal do Livro de Brasília, que tem como tema “Ler o Amanhã”. No Estande 70, a Academia Inclusiva de Autores Brasilienses (AIAB) e a Academia Aguaslindense de Letras (ALETRAS) reúnem escritores e apresentam obras que utilizam diferentes recursos para aproximar a leitura de pessoas com deficiência.

À frente da AIAB, a escritora Dinorá Couto Cançado trabalha há 31 anos com pessoas com deficiência visual. A experiência também orienta a produção de livros acessíveis e a defesa de uma literatura que considere diferentes formas de leitura.

“Esse é o estande mais inclusivo”, afirma Dinorá.

No espaço, os visitantes encontram audiolivros, exemplares em Braille e fantoches utilizados em atividades interativas. A proposta é permitir que crianças com diferentes deficiências tenham contato com as histórias de maneira autônoma.

Para Dinorá, porém, a acessibilidade não se resume aos recursos disponíveis nos livros. “Considero a acessibilidade atitudinal a mais importante de todas. Não adianta vir a acessibilidade comunicacional, como o Braille, Libras e audiodescrição, se a pessoa não tem dentro de si aquele espírito inclusivo”, afirma.

Livros pensados para diferentes leitores

Entre as obras apresentadas está Uai pai, que bicho é esse?, de Dinorá. O livro ganhou uma edição em Braille com capa adaptada ao tato, permitindo que a criança explore elementos da narrativa também pelas mãos.

A escritora explica que a preocupação é fazer com que crianças com deficiência também se reconheçam como protagonistas das histórias.

“Queria que o deficiente que lesse a história se sentisse completamente acolhido e protagonista daquela história”, diz.

Parte desses exemplares é produzida de maneira artesanal e não está disponível regularmente para comercialização. A presença na Bienal, portanto, permite que o público conheça de perto materiais que combinam literatura e diferentes recursos de acessibilidade.

O trabalho de Dinorá também tem relação com a Biblioteca Braille. Em 2005, ela recebeu o Prêmio ODM (Objetivos de Desenvolvimento do Milênio) pelo trabalho desenvolvido na área.

A escritora afirma que a leitura teve papel decisivo em sua própria trajetória. “Eu sou a prova viva disso. Se não fosse a leitura na minha vida, e o tanto que eu trabalhei literatura infantil com alunos em 129 escolas e nessa biblioteca Braille, eu não estaria aqui”, relata.

Histórias também ajudam a combater o preconceito

A literatura inclusiva, na avaliação da escritora, poeta e palestrante Sharlene Serra, autora da Coleção Incluir, também pode contribuir para a formação de crianças sem deficiência.

“Criança orientada não tem preconceito”, resume.

Para Sharlene, o contato com histórias que apresentam personagens com deficiência ajuda a apresentar a diversidade desde a infância. “A diferença já faz parte do ser humano, e quando entendemos isso, passamos a respeitar e ter um olhar completamente diferenciado”, afirma.

A representação também aparece no trabalho de outros autores presentes no estande. Poeta e escritora de A Dama dos Anéis, Célia da Silva Soares encontrou na ALETRAS espaço para desenvolver a carreira literária.

A academia promove atividades em escolas, coletâneas, encontros e saraus. Para Célia, a participação nas iniciativas ajudou no desenvolvimento pessoal e profissional.

“Elevou meu grau de discernimento e cultura. Me ajudou a publicar livros e me tornei melhor como pessoa e escritora”, conta.

Tecnologia amplia alcance dos autores

A escritora, poeta e palestrante Luh Veiga destaca outro aspecto da produção literária: as possibilidades abertas pela tecnologia para autores que buscam alcançar novos públicos.

“Poder transformar palavras em arte é maravilhoso e hoje, com a tecnologia avançada, a gente atinge o mundo”, afirma.

Presidente da ALETRAS, a escritora Keula Rodrigues também participa da Bienal com Prenderam o Saci, obra bilíngue em português e iorubá.

Para Keula, a literatura deve estimular o leitor a imaginar outras possibilidades para as histórias. “Se o leitor puder imaginar um final diferente para essa história, como o Saci disputando as Paralimpíadas, o trabalho está feito”, afirma.

A parceria entre AIAB e ALETRAS reúne, assim, duas frentes: a criação de mecanismos para ampliar o acesso aos livros e o incentivo à produção de novos escritores.

Bienal aproxima famílias da literatura

Entre os visitantes do estande estava Stefany, de 33 anos, mãe de Louise, que tem Transtorno do Espectro Autista (TEA). Para ela, a realização da Bienal em uma área de fácil acesso facilita a participação de famílias que nem sempre conseguem frequentar outros espaços culturais.

“Imagina pra quem não tem condição nenhuma? (…) Mas tá aqui do lado da rodoviária, vem dar uma volta e acaba descobrindo um universo de coisas que normalmente a pessoa não teria acesso”, relata.

Louise também participou da entrevista e contou que gostou do estande e dos bonecos disponíveis para as atividades.

A programação da Bienal também inclui a participação da escritora Fernanda Boaventura, autora de Ser ou Não Ter. Na palestra, ela aborda experiências de sua trajetória como pessoa com deficiência e transforma essas vivências em narrativa.

No Estande 70, a proposta de inclusão aparece em diferentes formatos: no Braille, nos audiolivros, nos fantoches, na representação de pessoas com deficiência e na abertura de espaço para escritores apresentarem seus trabalhos.

A iniciativa das duas academias mostra que ampliar o acesso à literatura envolve tanto recursos de acessibilidade quanto a possibilidade de diferentes autores e leitores ocuparem o mesmo espaço.