Primeiros dias da preparação para o transplante de medula óssea mostram a intensidade do tratamento e os desafios enfrentados antes do grande dia

Desde a última terça-feira(09), estou internado no Hospital Brasília para iniciar o processo do meu transplante de medula óssea. Como muitas pessoas me acompanham nas redes sociais e têm curiosidade sobre como funciona essa jornada, decidi compartilhar um pouco do que tem acontecido nos bastidores dessa caminhada.
A contagem regressiva para o transplante é feita de uma forma diferente. Os dias anteriores ao procedimento são identificados com números negativos. Quando chegar o dia da infusão da nova medula, será o chamado D0.
D -10: o primeiro passo
Meu primeiro dia foi dedicado à colocação do cateter venoso central, um acesso que será utilizado durante todo o tratamento para administração de medicamentos, quimioterapias, transfusões e coleta de exames.
O procedimento foi realizado em centro cirúrgico com anestesia local e sedação. Fui informado que seria algo relativamente rápido, mas entre preparação, procedimento e recuperação, entrei por volta das 11h e só deixei o centro cirúrgico às 14h40.
Foi o início oficial dessa nova etapa da minha vida.
D -9: início da imunossupressão
No D-9 comecei a tomar a primeira dose de um imunossupressor.
Esses medicamentos têm a função de reduzir a atividade do sistema imunológico e são fundamentais em transplantes, pois ajudam o organismo a aceitar as células do doador e diminuem os riscos de rejeição.
Foi uma etapa tranquila, sem intercorrências importantes.
D -8: uma crise de dor e a primeira sessão de laserterapia
Recebi a segunda dose do imunossupressor e os efeitos colaterais apareceram com força.
Tive dores intensas nas costas e nas pernas, desencadeando uma crise álgica relacionada à anemia falciforme. Também senti fortes dores de cabeça, perdi completamente o apetite e fiquei extremamente indisposto.
Para controlar as dores, a equipe médica passou a me medicar com Tramal a cada quatro horas. A medicação ajudou bastante, mas trouxe um efeito colateral nada agradável: uma constipação severa. Passei três dias sem conseguir ir ao banheiro.
Nesse mesmo dia também fiz minha primeira sessão de laserterapia bucal.
O procedimento é realizado pela equipe de odontologia hospitalar e tem como objetivo prevenir ou reduzir a mucosite, uma das complicações mais comuns da quimioterapia. A mucosite pode provocar feridas dolorosas na boca e na garganta, dificultando bastante a alimentação durante o tratamento.
Foi nesse momento que percebi como o transplante envolve uma verdadeira força-tarefa multidisciplinar.
D -7: a primeira quimioterapia
O D-7 marcou o início da quimioterapia.
A programação inicial previa duas aplicações do medicamento, uma pela manhã e outra à noite, ambas com duração aproximada de três horas.
No entanto, fomos informados de que a farmácia responsável pela preparação do medicamento não conseguiria entregá-lo a tempo. Por isso, a programação precisou ser alterada.
A aplicação, que deveria começar às 18h, só teve início por volta das 21h.
Confesso que isso nos deixou bastante chateados. Em um momento tão delicado, qualquer atraso gera ansiedade e muda completamente a rotina do dia.
Outro desafio foi que o medicamento utilizado é eliminado pela pele. Para evitar irritações e possíveis queimaduras, precisei tomar banho a cada quatro horas durante toda a madrugada.
Resultado: praticamente não dormi.
Apesar do desgaste, graças a Deus não apresentei nenhuma reação adversa ao medicamento.
D -6: exames, fisioterapia e uma intercorrência esclarecida
O sábado começou cedo.
Minha primeira atividade foi uma ecografia do abdômen superior para avaliar especialmente o estado do fígado e dos rins.
Graças a Deus, os resultados foram bons e não apontaram nenhuma alteração preocupante.
Depois disso, realizei mais uma sessão de laserterapia bucal com a equipe de odontologia.
Também mantive minha rotina de fisioterapia, que acontece duas vezes por dia desde o início da internação. Pela manhã sou acompanhado pela Dra. Paula e, à tarde, pelo Dr. Paulo.
A fisioterapia tem sido uma parte importante do tratamento, ajudando a preservar meu condicionamento físico durante a internação.
Mais tarde, iniciei uma das doses de quimioterapia previstas para o dia e aconteceu uma situação que gerou preocupação.
O medicamento deveria ser administrado em aproximadamente 30 minutos, mas a infusão terminou em pouco mais de 10 minutos.
A princípio, surgiu a suspeita de erro na bomba de infusão ou na preparação da medicação.
Algum tempo depois, a farmácia esclareceu a situação. O rótulo da bolsa indicava um volume de 600 ml, mas o conteúdo real era de pouco mais de 100 ml. Segundo a equipe, a quantidade correta do medicamento havia sido preparada e administrada, não havendo qualquer prejuízo ao tratamento.
No mesmo período também iniciei uma medicação complementar administrada continuamente por cerca de 12 horas, com a função de proteger a bexiga e as vias urinárias dos efeitos dos quimioterápicos.
A vida continua acontecendo
Nem tudo dentro de um transplante é feito apenas de exames, remédios e procedimentos.
Neste sábado tivemos também um momento especial.
Era dia da estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo.
Eu e minha esposa, Girlene Fidelis, carinhosamente chamada de Gi por familiares e amigos, decoramos o quarto com uma grande bandeira do Brasil para acompanhar a estreia da Seleção Brasileira
Pode parecer algo simples, mas em um ambiente hospitalar esses momentos fazem muita diferença.
Eles lembram que, mesmo em meio ao tratamento, a vida continua acontecendo.
Entre exames, quimioterapias, fisioterapia e medicamentos, ainda existe espaço para a esperança, para a família, para o amor e para a alegria.
Seguimos em frente.
Um passo de cada vez. Rumo à cura.






